domingo, 30 de março de 2014

COMPARAÇÕES ENTRE O GOVERNO DUTRA E O GOVERNO ELEITO DE GETÚLIO VARGAS


*Leon Bevilaqua

 

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Governo Dutra – (1946-1951)
 

            O governo Dutra ocorreu após o governo interino de José Linhares, um presidente do STF que governou o país por noventa e três dias, depois da queda de Getúlio Vargas em 1945.

            Dutra teve um governo medíocre, os trabalhistas foram deixados de lado e não participaram do poder, apesar de nele terem votado. A UDN- partido elitista e contra os pobres, dominou o cenário político. As finanças estiveram mal dirigidas e a corrupção no Banco do Brasil incontida. Nosso país esteve subordinado aos interesses estrangeiros e o povo não teve um só aumento no salário mínimo.

            Uma das razões para que o povo estivesse mal é que o movimento sindical foi cerceado por uma legislação restritiva e os trabalhadores acuados pela ação policial. Ou seja, com Dutra a repressão à classe trabalhadora foi regra da política. Em alinhamento com os norte-americanos, houve o rompimento das relações com a União Soviética, uma decisão natural dentro do contexto.

           

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            Mas no governo que sucedeu o de Dutra, o do presidente eleito Getúlio Vargas (1951-1954), o sindicalismo foi livre e o ministro do trabalho, João Goulart, foi um amigo e protetor dos interesses do povo. Foram efetuados dois aumentos do salário mínimo, o último deles de 100 %, além de ter sido criada a Petrobrás e outras entidades modernizadoras e benéficas à preparação de uma futura soberania plena da nação.

            Neste seu segundo governo, Getúlio caiu em agosto de 1954. As forças conservadoras queriam que tudo voltasse ao que tinham sido no governo Dutra. Queriam, principalmente, apropriar-se da Petrobrás- recém criada-, e privatizá-la com as demais atividades energéticas estatais, o que não conseguiram em parte devido ao trauma da morte de Getúlio. Essas forças não aceitavam o nacionalismo e o desenvolvimentismo de Getúlio Vargas e Goulart, mas os pretextos alegados foram a corrupção e outros absurdos.


Notas:

         
1. Nos tempos que antecederam o primeiro governo de Getúlio Vargas, a questão do voto feminino era bastante controversa. A revista “O malho”, à época, em uma charge de capa, sugeriu que, no dia em que as mulheres fossem eleitas para o Congresso, entre elas o plenário se restringiria a pontos de bordado, plissês e peças de tecidos. Inúmeros parlamentares e juristas se manifestavam frontalmente contrários à participação feminina na política. Houve até mesmo quem afirmasse que a instituição do voto entre as mulheres seria algo “imoral e anárquico, capaz de provocar a dissolução da família brasileira”. Ocupando o cargo de chefe do governo provisório, Getúlio Vargas baixou o Decreto-lei de n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, instituindo o voto feminino no Brasil. As mulheres argentinas só obteriam tal conquista na década de 50.

 
2. Há um fato histórico, pouco comentado, que demonstra a boa vontade de Getúlio com os pobres e oprimidos: o Decreto-lei nº 1202, publicado em 8 de abril de 1939, durante o primeiro governo de Getúlio, que vetava ações que coibissem os cultos religiosos. Antes de Getúlio, comuns eram as perseguições policiais aos cultos religiosos dos negros, que eram chamados de sessões de macumbaria.


3. Como no governo Dutra não houve um só aumento do salário mínimo, a questão social herdada por Getúlio era gravíssima, de forma que ele teve que dar dois aumentos no salário mínimo no seu último governo.


4. Carlos Lacerda, após a morte de Vargas, foi perseguido pelo clamor público e pediu asilo no Galeão e outros locais.

 
5. No segundo governo de Vargas existiram pressões exigindo o envio de tropas brasileiras para a Coréia, na época em que esta se encontrava em guerra, na década de 50. Estas pressões eram exercidas principalmente pelos que desejavam a manutenção de uma política de estreita colaboração com os Estados Unidos, o que ocorrera no governo Dutra. Getúlio não enviou um só homem para a Coréia, tendo auxiliado, simbolicamente, com o envio de medicamentos e café.
 

6.

a) Leitura fundamental para a boa compreensão dos governos de Getúlio Vargas é a do livro de Hélio Silva, “1954: um tiro no coração”, publicado atualmente pela LPM pocket-volume 619 da editora.

b) Leitura que leva à boa compreensão das relações entre Getúlio e João Goulart: “João Goulart- uma biografia”, de Jorge Ferreira, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 2011.
 

7. Leituras valiosas sobre Vargas e seus períodos de governo:

a) Discurso do Deputado Federal Artur Bernardes, proferido na sessão extraordinária do dia 15/09/1953;

b) A carta testamento deixada por Vargas;

c) Discurso de João Goulart, no cemitério de São Borja, diante do caixão de Getúlio Vargas;

d) Discurso de Oswaldo Aranha, pronunciado por ocasião do enterro de Getúlio Vargas, em São Borja.

 
8. Desde os tempos de Vargas, privativistas tentam se apoderar das empresas estatais energéticas. Eles têm consciência de que se conseguirem fazer isso por completo, terão dominado a nação. A Petrobrás é sempre o maior alvo.


9. Getúlio Vargas foi o fundador do Estado Moderno brasileiro, promotor das maiores reformas sociais e econômicas verificadas em nossa história, com direitos trabalhistas e industrialização. Quem nega isso está com conversa fiada.

 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Juscelino terminou de construir Brasília na marra – a luta de JK para construí-la e o atrevimento de alguns.


 
 
*Leon Bevilaqua

           

            Juscelino Kubtschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961, em junho de 1959, rompeu com o FMI. Ele estava irritado, acreditando na existência de um conluio para paralisar em definitivo a construção de Brasília. Seu ministro Lucas Lopes, um americanófilo, apoiado pelo nada nacionalista Roberto Campos, disse-lhe para suspender as obras. Indignado, Juscelino aproximou-se dos economistas estruturalistas, que consideravam a tutela do FMI um empecilho para o desenvolvimento da América Latina. Ambos os conselheiros liberais foram demitidos por JK.

Notas:

1)  Quando o udenista Adauto Lúcio Cardoso perguntou ao líder Carlos Lacerda se a capital ia mesmo mudar, ouviu: “vai nada, Juscelino não é de nada. Isso vai é desmoralizá-lo, porque ele não dará conta”. Provocação e desafio. Brasília, depois dessa, além de prioridade era questão de honra para JK. Adauto Lúcio Cardoso e Lacerda participaram ativamente do movimento golpista que depôs o presidente João Goulart, em março de 1964.

2)  Lucas Lopes e Roberto Campos foram agentes do liberalismo em sua luta contra o nacional-desenvolvimentismo que caracterizou a ação do Estado Brasileiro.

3)   Lucas Lopes conspirou contra o governo de João Goulart em 1964, situando-se entre os que após tentarem conquistar o Estado pelas vias legais, optaram pela via golpista como meio de chegar ao poder e concretizar suas ideias.

4)   Carlos Lacerda foi jornalista e orador brilhante do século XX brasileiro. Entre boa parte dos intelectuais brasileiros da atualidade, inclusive Saul Leblon, na revista Carta Capital, estabeleceu-se um consenso: Carlos Lacerda, hoje, é amplamente desprezado pela História como alguém que usou o jornalismo e a política para favorecer poderosos inimigos do povo, inclusive estrangeiros. Não hesitou em perseguir de forma cruel, até a morte, Getúlio Vargas, tendo perturbado enormemente os governos de Juscelino e João Goulart. Tentou perturbar também o regime militar instalado em 1964, mas foi contido com a cassação de seus direitos políticos em 1968. Não há quem queira ser tido pela posteridade como um vendido, um homem vil como Carlos Lacerda. 

5)    Trecho de um depoimento de Juscelino a respeito do rompimento que fez com o FMI: " Cada dia, crescia a intransigência dos técnicos daquele órgão. Não havia contraproposta que os satisfizesse. Em princípio de junho de 1959, veio o desfecho. Decidi romper com o Fundo e prosseguir, sem nenhum auxílio exterior, no meu programa de desenvolvimento. Logo a revista Time surgiu em campo, antegozando as dificuldades que o Brasil iria enfrentar: ' o Presidente do Brasil está num beco sem saída'. Essa era a manchete, característica da tradicional falta de acuidade política dos norte-americanos. Num beco sem saída, estaria sim, se me houvesse submetido às imposições do Fundo; pois teria que abrir mão do programa de metas; deixaria o povo passando fome; não construiria Brasília; nem realizaria a industrialização do país".
    
     Obs.: Este texto foi citado por Hélio Silva, em seu livro sobre o Presidente Juscelino, editado pela Editora Três.

6)   Em dezembro de 2013, a Comissão da verdade paulista concluiu que Juscelino foi assassinado por razões políticas em 22 de agosto de 1976 (ver link: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2013/12/juscelino-kubitschek-foi-assassinado-conclui-comissao-da-verdade-de-sao-paulo-7241.html). Existe documentação coletada por aquela comissão com indício de que o ex presidente foi alvo de uma conspiração, e não morto em um acidente de carro. O motorista de Juscelino, Geraldo Ribeiro, teria levado um tiro na cabeça e, por esse motivo, perdido o controle da direção de um carro opala e batido em um veículo de carga, matando Juscelino. Isso teria ocorrido na via Dutra, na altura da cidade de Resende, no Rio de Janeiro. O crime teria ocorrido durante o governo do presidente Geisel e, segundo a comissão, os indícios apontam que os mandantes do crime foram os generais Golbery do Couto e Silva – então ministro da casa civil da presidência da república, e João Batista Figueiredo, que na época comandava o Serviço Nacional de Informações, tendo sido ele nomeado como último presidente militar do país dois anos depois.

 

sábado, 23 de março de 2013

Opiniões contrárias


*Leon Bevilaqua

- Um texto em que se fala de inimigos e amigos da obra de Getúlio Vargas-


            Somados os dois períodos à frente do poder, GETÚLIO VARGAS passou dezoito anos e meio no Catete, o palácio presidencial situado na anterior capital do Brasil, o Rio de Janeiro. Houve tempo e ações que o tornaram o mais importante personagem da História política nacional, tendo deixado uma obra de monumental estadista, protetora dos interesses do nosso povo.

            Há um consenso: não houve ninguém como ele que provocasse tanta paixão e ódio. Após aproximadamente sessenta anos de sua morte- (ocorrida em 24/08/1954) - sua sombra e seu pensamento ainda estão a nos envolver.

            Seu pensamento e ações ainda provocam contestações, desafiando exegetas, antagonizando analistas.

            Para os que não são elitistas e respeitam o povo, nos deixou uma herança de inestimáveis realizações a serviço da soberania do país e em nome do engrandecimento do povo brasileiro.

            Para os equivocados, os mal intencionados, os entreguistas e traidores da pátria, nos deixou um legado maldito, que prejudica o presente e retarda o avanço da sociedade brasileira.

            Fernando Henrique Cardoso, um neoliberal que foi um dos piores presidentes que este pais já teve, tentou destruir a obra de Vargas. Foi inútil, embora tenha ele privatizado de forma irracional boa parte do patrimônio público nacional.    Contra ele e seu fiel escudeiro José Serra, pesarão bastante perante a História os escritos que nos foram deixados por Aloysio Biondi e Amaury Ribeiro Junior.  

O sucessor de FHC, um grande presidente trabalhista, pensou de modo radicalmente oposto. Lula jamais escondeu sua admiração e respeito por Getúlio. Em setembro de 2010, assinou a lei 12.326, que oficialmente inscreveu o nome de Getúlio no livro dos heróis da pátria, que se encontra no panteão da liberdade e democracia em Brasília.

            De um modo geral, pode-se afirmar que os inimigos do pensamento e da obra de Getúlio, na atualidade, devem ser encarados com descrédito e suspeita. No passado, não foi à toa que Lacerda, um dos mais cruéis detratores de Getúlio foi um dia chamado de corvo. Ele e outros inimigos de Vargas terão lugares tristes na História política do Brasil.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

FICHA DE LEITURA DE UM LIVRO REVELADOR

* Leon Bevilaqua

              CELSO FURTADO E O MINISTÉRIO DA CULTURA

          O líder intelectual do desenvolvimentismo, autor de vários livros notáveis de História e Economia, o defensor incansável da industrialização brasileira, o idealizador da Sudene, o Ministro do Planejamento, o economista patriota, todos conhecem.
             UM HOMEM MENOS CONHECIDO
          O leitor culto e atento de literatura nacional, intensamente brasileiro e cidadão mundial, se revela ao grande público no livro Ensaios sobre a Cultura, volume cinco da coleção Arquivos Celso Furtado, editado pela Contraponto em abril de 2012, com útil introdução da viúva de Celso Furtado, a senhora Rosa Freire D’Aguiar Furtado.
          Desde jovem, Celso Furtado percebera que “o instrumental da economia era insuficiente para entender os problemas do Brasil e do mundo; e que o uso generalizado, e até abusivo, da matemática, e dos grandes modelos econométricos, deixara de lado outras variáveis importantes”.
          Entre os significantes ensaios feitos por Celso Furtado, constam neste livro a homenagem a Jorge Amado e o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras em 1997.
          Em textos esclarecedores, evidencia-se o pensador das relações entre economia e cultura, o formulador de políticas culturais quando foi Ministro da Cultura entre os anos de 1986 a 1988 – no governo Sarney. Hoje se sabe que um dos méritos do presidente Sarney foi ter tido Celso Furtado como ministro.
          Ele foi indicado para o cargo por Sarney, após receber o presidente abaixo assinado com 176 assinaturas, encabeçado por Oscar Niemeyer, Antônio Cândido, Antônio Houaiss, Barbosa Lima Sobrinho, Chico Buarque, Tom Jobim e muitos outros intelectuais.
          Em textos breves e qualificados, Celso nos falou de Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Machado de Assis, Euclides da Cunha e outros brasileiros das letras. Referiu-se, também, à sua atuação no Ministério da Cultura, nos quase três anos em que nele permaneceu.
          Neste volume, existem dois artigos de intelectuais ligados à cultura, um de Oswaldo de Araújo e outro de Fábio Magalhães. Ambos abordam a ação de Celso Furtado no Ministério da Cultura. O livro é finalizado com duas entrevistas com Celso Furtado, a primeira feita a Hélène D’arc e Hélène le Doaré, e a segunda a Gabriela Marinho.
          Esta obra revela um lado menos conhecido de Celso Furtado, mas não menos importante e merecedor de atenção.
          NOTAS:
          1) Trecho da homenagem a Jorge Amado:
          “As considerações que aqui faço são de um leitor sem maiores pretensões, que durante meio século acompanhou a montagem desse formidável afresco da sociedade nordestina que são os seus livros, nos quais tanto aprendemos sobre o que somos e como somos”.
          2) Trechos do ensaio – Machado de Assis: contexto histórico:
          a) “a mistura de ceticismo e humorismo que constitui o cimento desta obra revela um pensador subterrâneo que enviasse mensagens aos leitores do futuro”.
          b) “só a continuidade do sistema monárquico com sua simbologia encarnada na pessoa do imperador explica a preservação da unidade nacional brasileira”.
          3) No ensaio – Machado Metafísico, Celso Furtado manifestou especial apreço ao conto machadiano “Pai contra Mãe”, considerando-o um autêntico ensaio sociológico.
          4) No ensaio- Pressupostos da política cultural, Celso Furtado nos fala de um velho e bom princípio da economia política: “ Ao Estado cabe mais do que abrir espaço para que atuem as forças do mercado. Tarefa não menos importante é introduzir modificações estruturais que corrijam a tendência à concentração da renda e da riqueza”.
          NOSSO COMENTÁRIO:
         
          Na sofrida década de 90, do século passado, no Brasil, Argentina, Peru e Chile, os governos neoliberais deixaram de lado a introdução de políticas estruturais que corrigissem a tendência à concentração de riqueza. Mais que isso, privativistas apoderaram-se do Estado e realizaram a privatização de grandes empresas estatais. Ainda há quem tente, ferozmente, voltar ao governo federal para se apoderar de empresas básicas e essenciais à nação, como a Petrobrás, o Banco do Brasil, o BNDES e a Caixa Econômica.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um livro sem capa - Recordações de um bibliófilo


* Leon Bevilaqua


Já estamos no início do terceiro milênio, vivendo sob o governo desenvolvimentista e amigo do povo de Dilma Rousseff. A situação econômica dos brasileiros melhorou significativamente e as carências são menores, diferentemente da condição de muitos desses brasileiros na infância.
Há sessenta anos, o acesso a livros era raro, e os que haviam eram quase todos impressos em papéis ruins, sem qualidade minimamente satisfatória. As cidades não tinham bibliotecas públicas como hoje, não havia livros digitais e o preço alto fazia com que o produto fosse, na prática, um artigo de luxo. Quando criança, sentia-me privilegiado por ter livros de Monteiro Lobato e alguns clássicos de literatura de língua portuguesa, entre eles Machado de Assis e Eça de Queiroz.
Soube, alguns anos após essa época, que uma família amiga tinha apenas um livro em casa, herança que uma jovem dessa família recebeu de um tio seu. Ele não tinha capa nem as páginas iniciais, de forma que a moça não soube o nome do autor e da obra. Foi assim que ela teve o prazer de conhecer a literatura.
Tempos depois, para ter acesso a livros, uma vez que a maioria das escolas não tinha bibliotecas, as crianças que gostavam de ler tinham que pegar ônibus e ir até as bibliotecas circulantes. Isso quando tinham a sorte de habitar cidades que tinham essas bibliotecas.
Os momentos dentro dos ônibus foram classificados por muitos, já não mais crianças, como inesquecíveis. Muitos continuam correndo atrás dos livros até hoje.
A jovem minha amiga, do livro sem capa, teve uma juventude difícil e carente. Casou-se com um rapaz que, na triste década de noventa do século passado, perdeu o emprego e, para garantir o sustento da família, montou uma banca de camelô. A amante dos livros acabou substituindo o marido na banca, que foi transformada em ponto de troca de livros. Mais tarde ela teve uma banca de jornal que em pouco tempo virou um sebo.
A mulher foi trabalhar em uma escola como monitora de alunos e, logo depois, conseguiu um emprego na biblioteca da escola. Neste trabalho, combateu a fama de que as bibliotecas são ambientes que cheiram mal.
Não sei o que aconteceu a essa amiga minha, pois tomamos caminhos diferentes. O certo é que em comum tínhamos o amor pelos livros. Eu cultivo o amor à leitura em minhas filhas e ela nos seus filhos.

Notas de um bibliófilo:

  1.   Bibliotecas são espaços reservados para a produção de conhecimento, o que se obtém através da ação/leitura. Para tanto, ela deve ser incentivada. Nesse sentido, é importante que as bibliotecas sejam ambientes abertos, dinâmicos e agradáveis.
  2.    Estimular a leitura não cabe apenas aos professores de língua portuguesa e de literatura. Instigar estudantes a ler é uma tarefa que deve começar em casa com os pais, e que deve continuar com todos os professores, do ensino infantil até as universidades.
  3.    Obras contemporâneas são importantes, mas nunca se deve deixar de lado os clássicos. Detalhes de épocas passadas, diferentes estilos de escrita, e o mais surpreendente: uma obra antiga pode ser mais atual do que se espera.
  4.     Leitura não é algo que deve ser instigado e cultivado apenas dentro das escolas. Diferentemente do que muitos pensam, muito além de formar alunos leitores, devemos ajudar crianças e adultos a encontrar o prazer que a leitura é capaz de proporcionar.
  5.    Conforme dados do IBGE de 2009, 378 municípios brasileiros não tinham bibliotecas públicas naquele ano. Só no Estado de São Paulo, eram 26 cidades.
  6.   Até hoje, em muitos lares brasileiros, não há um só livro. Seria extremamente positivo que na cesta básica alimentar recebida pelos trabalhadores mais pobres, houvesse a surpresa de um livro. O fato da cesta básica levar um livro para o trabalhador uma vez por mês, possibilitaria que tais pessoas e suas famílias formassem em casa uma pequena biblioteca, uma forma criativa de aproximação com livros. Esta é uma ideia defendida por gente generosa, mas que precisa ser suportada principalmente pelo Estado. Uma outra forma de aproximação com os livros seria as entidades empregadoras passarem a dar livros a seus empregados nas datas festivas, como aniversário, natal e outras.
  7.    Para bons bibliotecários, mais importante que a biblioteca ter um bom acervo e boa estrutura, é o público usufruir. Se o acervo ficar guardado, sem uso, não adianta nada ter.
  8.    "O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado". Mário Quintana em O caderno H.
  9.     "Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo; e o seu próprio conteúdo". - Paul Valery.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A vida quer é coragem - um livro de leitura altamente recomendável

*Leon Bevilaqua

No futuro, muitos serão os escritos a respeito da primeira presidenta do Brasil, a economista Dilma Rousseff. Por inúmeras razões, entre elas o grande valor e coragem por ela demonstrados no decorrer da campanha eleitoral presidencial de 2010, quando enfrentou José Serra, um neoliberal entreguista que contou com apoio integral da velha imprensa. Aliás, valor e coragem nunca faltaram a esta mulher que se bateu contra um câncer pouco tempo antes de se candidatar a presidente, tendo sempre enfrentado consideráveis adversidades. Suas lutas em favor do povo mais sofrido desse país, antes e depois de assumir a presidência, terão se transformado em verdadeira lenda dos tempos atuais-apesar das tecnologias de documentação já existentes.
Neste futuro, ainda se falará da obra pioneira de Ricardo Batista do Amaral, seu primeiro biógrafo, jornalista autor do livro “A vida quer é coragem”. No texto, é abordada a vida de uma mulher sensível e resoluta, que ama a obra de Cecília Meirelles, que gosta em especial do poema que diz:
“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar/ e a voltar sempre inteira”.
Estes versos constituem a síntese da trajetória dessa mulher incomum.
Ela foi a primeira mulher a ocupar cargo de chefia relevante na prefeitura de Porto alegre e no estado do Rio Grande do Sul.
Nos governos do presidente Lula, a primeira mulher ministra das minas e energia e chefe da casa civil. Nesses cargos, demonstrou capacidade ímpar de gestora, o que levou Lula a indicá-la como candidata a presidente e a apoiá-la na escalada á presidência da república.
É a leitura deste livro, que conta a trajetória de Dilma e boa parte da história política de nosso país no século passado, que recomendamos aqui.

Livro recomendado:
A vida quer é coragem.
Assunto: Biografia de Dilma Rousseff inserida num fundo histórico
Autor: Ricardo Batista Amaral

1ª Edição
Acabamento: brochura
Formato médio: 15,9 cm X 23 cm
Capítulos: 22
Peso: 680 g 
Editora: Primeira pessoa- Sextante.
Número de páginas:304
Ano de Publicação:2011.



Notas:


1) Entre os resultados da pesquisa feita por Ricardo Batista do Amaral para escrever esse livro, está o achado da foto de Dilma sendo interrogada pela justiça militar em novembro de 1970, que está inserida no livro e em sua contra-capa.
Dizem que essa foto fará com que Dilma entre para a História, mas Dilma dela fará parte sobretudo pelas suas políticas de inclusão social e proteção do patrimônio público da ganância de certos privativistas.
2) O texto do livro é elegante e preciso. Uma das melhores reportagens políticas já escritas nos últimos tempos. É também um ensaio sobre uma nação que se deixou cortar por décadas até se revelar novamente inteira.
3) Ricardo Batista Amaral faz parte de um escolhido grupo de amigos da presidenta, de quem cuida e troca confidências.
4) O pai de Dilma, Pedro Roussef, era um homem culto e bastante amigo da filha. Foi ele quem lhe apresentou os clássicos Zola, Dostoievsky e Balzak, que foram bastante lidos por ela.
5) O autor deixou de citar um importante fato do segundo turno das eleições presidenciais, ocorrido em 16 de outubro de 2010, num sábado, em Canindé do Ceará, na Igreja de São Francisco. Em missa oficiada pelo Frei Francisco Gonçalves, um religioso de reconhecida bondade, nordestino de Campina Grande, o então candidato a presidência José Serra e o ainda Senador Jereissati foram desmascarados em suas campanhas pseudo religiosas pelo oficiante que, quase ao final da missa, proibiu a distribuição de panfletos detratores de Dilma, falsamente atribuídos e assinados pela CNBB.
 O político Tarso Jereissati - que acompanhava a missa ao lado de José Serra, se  exaltou e afirmou que "eram uns padres petistas como aqueles que estavam causando problemas à Igreja". Partidários de Jereissati e José Serra também se exaltaram e o Frei teve que ser escoltado na saída da Igreja.
O infortúnio de Serra começou já ao chegar ao local, quando foi vaiado do lado de fora da igreja por manifestantes pró Dilma. Na saída, o candidato chegou a ser empurrado em novo conflito em que quase caiu.
Apesar dos papéis nada edificantes desempenhados por certos líderes religiosos na campanha presidencial de 2010, ainda restam valorosos líderes como Frei Francisco Gonçalves, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomaz Balduíno, que não se associam com poderosos e mantém seus compromissos com os ensinamentos do mestre.
6) No fim do capítulo 21 do livro, na página 298 desta edição, o autor nos fala do papel desempenhado pelo Papa na eleição presidencial de 2010. É um dos tópicos mais importantes do livro.
7) No texto é abordada a importância do apagão elétrico no governo FHC/Serra - que possibilitou em grande medida a ascensão de Dilma.
8) Nos blogs da revista Veja, sempre mordazes em relação aos trabalhistas e amigos do povo, esse livro foi classificado como hagiografia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Algumas reflexões brasileiras no 1º centenário da morte de Leão Tolstói

Leon Bevilaqua


Estamos vivendo no ano do 1º centenário da morte de Leão Tolstói, ocorrida em 1910. Tornam-se oportunas algumas reflexões sobre sua vida, sua obra, seu pensamento e atualidade.
Sua obra, por ter grande amplitude e variedade de gêneros - o conto, a novela, o romance, o teatro, a doutrinação estética, social e moral, abrange algumas milhares de páginas. Mas até hoje, ao levarmos adiante a leitura de seus escritos, os ganhos estão assegurados.
Ele foi o criador do quadro mais vasto e grandioso dos destinos da vida humana. Isto jamais ocorreu nas línguas modernas, depois das epopeias gregas e latinas.
Guerra e Paz, seu livro mais importante, foi publicado entre 1865 e 1869 em um periódico da época. Ele foi escrito na temporada mais feliz da vida de Tolstói. É um painel imenso das alternativas da paz e da guerra, um romance notável, acoplado a muitas considerações úteis até hoje aos que aspiram escrever obra de arte ou não.
Sobre o adultério e suas decorrências, jamais alguém falou com mais propriedade que ele em Anna Karenina (1875) e Sonata a Kreutzer. Este último livro é um libelo contra o casamento, nele se manifestando pela primeira vez em sua obra - com pujança- a ideia moral que preside a segunda e última fase de sua obra. Essa segunda fase é por muitos considerada sombria. Nela estão relacionados como principais os seguintes livros: 1º A morte de Ivan Ilitch – de 1886- um de seus trabalhos mais perfeitos do ponto de vista artístico. É um relato comovente em que as ideias de Tolstoi não aparecem de uma forma explícita, mas são sugeridas graças à mestria das análises psicológicas. Entre os temas abordados no desenrolar dessa história de um homem que agoniza em meio a tremendos sofrimentos, destacam-se os seguintes: a mediocridade da vida burocrática, o orgulho e a tentativa de exclusão dos mais pobres, as desilusões e hipocrisias no casamento e a angústia perante a proximidade da morte. Mas o grande tema abordado, sem dúvida, é o conflito entre a ciência e as verdadeiras necessidades e aspirações do ser humano. 2º Sonata a Kreutzer – de 1890- um livro que nos fala de ciúme, violência e hipocrisia – é a primeira de suas obras francamente doutrinárias; 3º Ressurreição - de1899- este livro foi lançado pouco mais de dez anos antes de Tolstoi morrer, foi seu último romance. Na época em que foi publicado, o autor, já famoso, era mais conhecido pelas críticas sociais e religiosas do que propriamente como escritor de ficção. Ressurreição é um dos melhores romances de todos os tempos, demonstra a interdependência entre privilégio e violência através de um preciso desvendamento das relações de poder na sociedade.
É texto impregnado de espírito evangélico, um libelo contra a justiça dos tribunais russos da época em que viveu o autor. Leitura de utilidade para os diversos profissionais das lides jurídicas, é obra em que o mestre russo fala muito de dinheiro e também dos feitos dos advogados para obtê-lo para seus clientes. A leitura desta obra é uma oportunidade valiosa de passarmos a entender mais da atualidade em que vivemos. Só um escritor que amasse profundamente a humanidade poderia tê-la escrito.
Quando se trata de autores como Tolstói, todos os seus trabalhos são importantes, principais, inclusive os que alguns consideram menores, como - De quanta terra precisa o homem?- texto pertencente às suas lendas populares. Nestas poucas páginas, Tolstói nos fala dos contrastes da vida rural e urbana, da ganância humana sempre em busca da posse da terra para ter símbolo de status e domínio social.
As lutas terríveis e assassinas pelas terras das novas fronteiras agrícolas brasileiras- (Pará, Mato Grosso, Roraima e outros) – nos evidenciam a utilidade da leitura e análise de textos pertinentes e oportunos como esse.
Muito do pensamento de Tolstói foi mal recebido pela Igreja Ortodoxa Russa, pois ele questionava a necessidade de existência do corpo clerical, criticando fortemente a aproximação da Igreja em relação ao Estado. O comportamento nada ético de muitos clérigos da Igreja Católica e algumas seitas evangélicas nas eleições brasileiras de 2010, nos fez ter cogitações semelhantes às de Tolstói. Nestas eleições, até o Papa teve comportamento nada recomendável, ao tentar dar sustentação ao candidato presidencial mais antiético.
Afortunadamente o povo brasileiro manifestou, uma vez mais, o seu bom senso. O resultado das eleições foi favorável às forças desenvolvimentistas ligadas aos interesses populares. No plano federal, foram derrotados os equivocados privativistas e entreguistas pelos quais tantos setores clericais torceram e trabalharam desde antes do golpe de 1964.
Tolstói foi um mestre do realismo e várias de suas observações gozam de indiscutível perenidade. Eis aqui três delas:
1ª) “ Um estadista honesto e virtuoso é uma contradição interna tal como uma prostituta casta ou um alcoólatra sóbrio”.
Quantos dos políticos atuais brasileiros desmentem essa constatação do pensador russo?
2ª) “ Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas!”
3ª) “ Se queres ser universal, fale de tua aldeia”. Ou seja, para ser universal, é preciso somente estar atento ao seu mundinho particular.
Lenin, no artigo “Lev Tolstói como espelho da revolução russa”, sublinha o papel do escritor como um denunciador dos maiores males e chagas da sociedade capitalista. Como Tolstói, apesar de suas brigas com o clero ortodoxo russo era um místico idealista procurando reencontrar a caridade do cristianismo primitivo, Lenin concluiu seu artigo falando do atraso de Tolstói em relação a determinadas questões.
Tudo indica que, assim como as grandes epopeias gregas e latinas atravessaram os milênios, também a obra monumental de Tolstói conseguirá tal feito. Em todas as fases de seus trabalhos, Tolstói foi vigoroso na descrição dos detalhes e na animação dos grandes afrescos históricos e sociais. A exemplo de outros mestres da literatura, em todas as histórias que contou, o dinheiro é o personagem principal.
Finalmente, queremos reiterar aqui a importância da maior parte do pensamento de Tolstói, sua leitura historicamente útil, proveitosa; mesmo quando abordando utopias com as quais todos um dia sonhamos e que jamais serão realizadas.

Notas:
1) No 1º centenário da morte de Tolstoi, parte dos russos pede que a igreja ortodoxa russa perdoe o autor de Guerra e Paz, anulando sua excomunhão de fevereiro de 1901.
2) Já bastante conhecido e afamado, tendo já escrito sua obra-prima Guerra e Paz, Tolstói, após uma doença, durante cuja convalescência teve oportunidade de ler Shakeaspeare,Molière e outros grandes dramaturgos, resolveu escrever também para o teatro. Na extensa obra de Tolstói, é o seu teatro parte pequena. Ele o escreveu depois dos 58 anos e não são mais que cinco peças.
*Relação das cinco peças teatrais escritas por Tolstói*

1ª)O poder das trevas - drama em 5 atos
2ª)O cadáver vivo - drama em 6 atos
3ª)Os frutos da civilização - comédia em 4 atos
4ª)O vagabundo - comédia em 2 atos
5ª)O mujique e o operário - comédia em 6 quadros

Existem adaptações de textos de Romances, contos e novelas de Tolstói para peças teatrais. Algumas destas adaptações são originadas em parte do texto de Guerra e Paz e outras narrativas. Senhor e Servo originou uma bela peça teatral.
“E uma luz brilha na escuridão”- é uma bela peça baseada em texto de Tolstói, que deverá ser encenada na Alemanha e na Rússia dentro em breve. A peça aborda o tema de como se deve viver de fato.Compartilhar tudo, dar tudo que se possui conforme pretendeu fazer Tolstoi em sua velhice, ou seria o caso de cuidar de si mesmo. Se pensarmos na crise econômica e nos salários dos executivos, o tema é bastante atual. Ele tencionava dar seus valiosos bens no fim de sua vida, mas foi impedido por pressões de sua esposa, familiares e amigos. Por não ter feito tal doação, após sua morte, foi classificado como hipócrita por seus detratores. Eles não levaram em conta o fato de que o escritor destinara boa parte dos direitos autorais dos livros que escreveu a atos humanitários, inclusive os direitos do livro Anna Karenina.
3) O cineasta Serguei Eisenstein disse que “Anna Karenina” era de um moralismo feroz, e é verdade, é uma condenação do adultério. Ao mesmo tempo, apresenta uma compreensão, uma capacidade de transmitir os nuances, os sentimentos humanos, diante das quais essa finalidade inicial quase desaparece. Anna Karenina foi considerada por Dostoievski, em seu DIÁRIO DE UM ESCRITOR,"uma obra de arte perfeita".
4) Alexander Tolstói, bisneto de Leão Tolstói-(1828-1910)- participou - no fim do ano de 2010 - de atividades em Montevidéu que lembraram a morte do escritor russo há cem anos. Ele forneceu aos organizadores do evento abundante material fotográfico e bibliográfico entre outros. “Quando Leão morreu, o mundo chorou a morte de um dos maiores escritores, mas também de toda uma autoridade moral” – disse o descendente que há oito anos reside em Punta del este, a cerca de 140 Km de Montevidéu.
5) A atriz britância de origem eslava Helen Mirren defendeu as ideias de Tolstói ao afirmar, no 1º centenário de sua morte, que “qualquer Deus teria aceitado em seu céu o escritor russo”- excomungado desde 1901 por suas críticas à igreja ortodoxa. “Afinal de contas, sempre foi querido pelas pessoas, mas não pelo governo”, afirmou Mirren que recentemente interpretou Sofia, a esposa do autor no filme “A última estação” de Michaell Hoffman.
6) O pacifismo messiânico de Tolstói deixou uma boa marca na História: Mahatma Gandhy foi um dos seus mais ilustres discípulos, como também Martin Luther King. Gandhy e Tolstói trocaram cartas. É nítida a influência do pensamento de Tolstói na longa vida política de Gandhy. A correspondência entre Tolstói e Gandhy duraria somente um ano. De outubro de 1909 a novembro de 1910.
7) Minha vida – As memórias de Sofia Andreevna Tolstaia – esposa de Tolstoi – é um livro lançado em inglês em maio de 2010 pela Otawa University Press – sem tradução ainda para o português. Sofia, inicia sua narrativa contando sua infância.
8) Tolstói -em Guerra e Paz -foi acusado pelos críticos da época de embaralhar fatos e ficção.
9)Para teólogos como Leonardo Boff- O Reino de Deus está em vós (1878) – é um dos livros mais importantes que Tolstói escreveu, tendo influenciado Gandy e Martin Luther King.
10) Guerra e Paz é a grande epopéia da nação russa. Ela se refere a um importante período histórico, de cerca de quinze anos- de 1805 quando ocorreu a primeira guerra entre a Rússia czarista e a França de Bonaparte, a 1820 quando se tornaram perceptíveis os sinais da insurreição dos dezembristas. São quinze anos de história da Rússia repletos de acontecimentos decisivos. O ambiente agitado é o cenário em que viveram as personagens do romance.
11) Tolstói, está fora de dúvida, foi um homem que em toda sua vida procurou com zelo fanático a verdade. Daí decorreu o caráter autobiográfico de sua obra que acompanha todas as vicissitudes de sua vida. Guerra e Paz, um trabalho menos autobiográfico, é sua obra mais objetiva, mas também corresponde a uma fase de sua biografia, a época feliz do casamento, da vida de grande senhor rural e grande escritor. Ressurreição é o apogeu da “ literatura de acusação contra o sistema político e social russo”, contra as colunas da sociedade russa. Em 1898, no mês de setembro, Tolstói visitou uma prisão, coletando dados para escrever Ressurreição. Em 1900 - janeiro, recebeu visita de Gorki, que dele escreveu: " Agradou-me; é um verdadeiro homem do povo".
12) Tolstói, como muitos outros bons escritores, produziu uma obra prima atrás da outra, mas morreu sem ganhar o prêmio Nobel.
13) Tolstói nasceu em 9 de setembro de 1828- em Iasnaia Poliana, uma propriedade rural de sua família, a cerca de duzentos quilômetros de Moscou, onde viveu quase toda sua vida. A mansão existente nessa propriedade é muito bem cuidada até hoje pelo estado russo. Seu túmulo fica nessa propriedade. É notável a simplicidade das acomodações ocupadas por Tolstói em vida.
14) Algumas outras frases notáveis de Tolstói:
No fim do caminho está a liberdade. Até lá, paciência.
Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para fogueira.
Dizer que vai amar uma pessoa a vida toda é como dizer que uma vela continuará a queimar enquanto vivermos.
Não existe grandeza onde não há simplicidade, bondade e verdade.
Não se pode ser bom pela metade.
A vida matrimonial lembra uma barca que conduz duas pessoas em águas tempestuosas. Se qualquer uma das duas faz movimentos muito bruscos, a barca afunda.
As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
A razão não me ensinou nada. Tudo o que eu sei foi-me dado pelo coração.
É no coração do homem que reside o princípio e o fim de todas as coisas.
... a verdade é que tudo neste mundo, exceto Deus, é uma brincadeira.
15) Se compararmos o livro Anna Karenina com Guerra e Paz, constata-se que é um romance de estrutura mais afinada com a dos romances modernos, sem as longas digressões da obra anterior, com um núcleo dramático mais definido.
16) Chopin era o compositor preferido de Tolstói. Sonata a Kreutzer, no entanto, é um livro dele homônimo de uma peça musical de Beethoven.
17)Tolstói estudou música e se converteu em pianista. No capítulo VI do livro Primeiras reminiscências e recordações - de sua autoria - ele nos fala que tocava com sua amiga e parenta Tatiana Alexandrovna Ergolskaia, a quatro mãos, tendo se surpreendido com a segurança e a técnica de sua execução. O pai de Tolstói falava alemão e ele também. Tinha sotaque saxão, como seu preceptor alemão na infância. Como ser dotado de significativa inteligência e assimilação rápida, Tolstoi aprendeu várias outras línguas. Chegou a escrever fluentemente em francês e inglês, tendo, inclusive, mantido correspondência com intelectuais dessas duas línguas. Dominou o grego de tal forma que suas traduções eram mais perfeitas do que a de professores daquela língua clássica.
18) Tolstói foi casado por 48 anos. Deixou viúva Sofia Andreevna Tolstaia, que dele engravidou 15 vezes.
19)Tolstói entendia de muitos assuntos, como demonstrou ao longo de sua obra. No livro Khadji Murat, por ele planejado por tanto tempo e publicado em 1912, após sua morte, o grande assunto por ele abordado com competência foi a rivalidade. Rivalidade não só entre dois homens - Khadji e Chamil - mas também entre povos. Após a leitura desta curta novela ficam algumas conclusões: Khadji Murat é uma das melhores novelas até hoje escritas, sendo fundamental para que se compreenda o percurso de Tolstói ao longo de sua obra. Tolstói foi homem de intensas leituras. "Fausto", "Dom Quixote" e "Os Miseráveis" foram consideradas por ele obras muito importantes. Em carta a um amigo, afirmou: " ... de todas as ciências que o homem pode e deve saber, a principal delas é a de viver fazendo o mínimo possível de mal e o máximo possével de bem". Tolstói foi um moralista e, sendo assim, deve ser compreendido e louvado.
20) Os descendentes de Tolstói vivem em 25 países. São mais de 350 pessoas. Entre os países em que eles residem, relacionam-se os seguintes: Rússia, França, Itália, Suécia, EUA, Grã Bretanha, Uruguai e Brasil.