segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quem é quem?

*Leon Bevilaqua


Fernando Báez é intelectual latino- americano da atualidade, viajante e pesquisador erudito e minucioso das terras do Iraque, conhecido e reverenciado internacionalmente à direita e à esquerda do espectro ideológico. Isto, não só pela inegável competência, mas também pela sua integridade.
Como resultado de um estudo de doze anos, apresentou-nos a obra História universal da destruição dos livros, publicada no Brasil pela Ediouro. Nela, nos deparamos com uma visão assustadora da devastação sistemática da cultura e dos livros, que se iniciou no mundo antigo, até a catástrofe mais recente: a destruição de um milhão de livros no Iraque como conseqüência de uma guerra absurda.
É de consenso, entre os mais realistas, que os Estados Unidos atacaram o Iraque não só para assegurarem seu suprimento de petróleo, como também seus privilégios monetários e cambiais naquela nação. Após a ocupação, estabeleceram que aquele país deveria ter como reserva cambial, principalmente, o dólar e não o euro e outras moedas, como pretendia e começou a fazer o governo anterior.
Estudiosos afirmam que a destruição dos bens culturais e da cultura no Iraque decorrem da necessidade inexorável do dominador impor sua cultura sobre a do dominado.
De forma irrepreensível, o autor apresenta uma lista de prejuízos culturais causados por fogo criminoso ao longo do tempo, ficando evidenciado que a maior vítima de tantos crimes é a própria humanidade, pois “onde queimam livros, acabam queimando homens”, como disse o poeta alemão Heinrich Heine.
Abaixo, por serem elucidativos do assunto abordado, finalizamos transcrevendo os três tópicos seguintes do livro:

-1-

“ Declaração de um jovem da Universidade de Bagdá: ‘Algum dia alguém queimará a biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, e não haverá tanta perda como a que houve aqui.’ Ao se considerar a importância cultural do Iraque se deve recordar que o país contém centenas de lugares declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Nessas terras Nínive, onde Assurbanipal governou; Uruk, onde foram encontradas as primeiras amostras de escrita; Assur, capital do império assírio; Hatra e Babilônia.”

-2-

“ Quem são os responsáveis pela destruição cultural do Iraque?
Atribuo a maior parte da culpa à atual administração dos Estados Unidos, que ignorou todas as advertências e violou a Convenção de Haia de 1954 ao não proteger os centros culturais e estimular, por meio de uma propaganda de ódio, os saques. Também incorreu em delito de crimes contra o patrimônio cultural, expostos no Protocolo de 1999. Talvez seja também por isso que o governo Bush tenha pedido imunidade para oficiais e soldados ante possíveis processos nos tribunais penais internacionais. Talvez também por isso decidiu retornar à Unesco, e enviou sua mulher para negociar cargos executivos dentro da organização, despedir os assessores mais incômodos e silenciar qualquer crítica.”

-3-

“ O Iraque, pelo que descrevi e por tudo, é agora uma nação árabe ocupada pela força estrangeira mais repudiada no oriente médio, uma nação empobrecida por décadas de guerra, assolada por conflitos religiosos e atentados terroristas, em crise econômica, que sofre racionamento de alimentos, sem remédios nos hospitais, e , como se não bastasse, sua memória foi apagada, espoliada e subjugada. No Iraque se cometeu o primeiro memoricídio do século XXI.
Pode-se imaginar um destino pior para a região onde começou a nossa civilização?”


*Economista formado pela USP

Um comentário:

Flávio Augusto Molon disse...

Como sempre, os Estados Unidos fazem o possívelmente e sem moral declínio da cultura não só do Iraque como de outros países. A maldita doutrina bush que se fez presente durante anos, passou por cima do mundo para manter sua hegemonia. As atitudes dos EUA, perante o mundo apenas vem espalhando mais problemas para cultura do país! Isso sem contar que um país sem cultura é o mesmo que uma colônia em tempos modernos! Quando será que isso vai acabar?
Muito bom o texto, adorei!