sexta-feira, 5 de setembro de 2008

AS VINHAS DA IRA, UM LIVRO IMPRESCINDÍVEL



Leon Bevilaqua



Em 1939, os bibliotecários da St. Louis Public library fizeram um ato de repúdio ao livro As Vinhas da Ira, que acabara de ser lançado, queimando-o numa fogueira pública. O livro era de autoria de John Steinbeck, brilhante escritor norte-americano que nascera na Califórnia no ano de 1902 e morreria bem depois em Nova York – no ano de 1968. Essa fogueira serviu para que os oradores advertissem o restante dos escritores norte –americanos de que eles não tolerariam linguagem por eles classificada de obscena, nem doutrinas que não estivessem bem sancionadas pelo pensamento pró –capitalista.
Parece que não adiantou muito esta manifestação de intransigência. O livro, no nosso terceiro milênio, continua a ser bastante lido, sendo um documento literário importante de como viveu a população norte-americana na década de 1930. Há um consenso em nossos dias, na obra só há uma obscenidade: o sofrimento e abandono a que esteve sujeito largo contingente populacional daquele país no período focalizado.
Na década de 30, foram inúmeras as desventuras a que estiveram sujeitos os trabalhadores norte americanos urbanos e rurais. Existiam programas federais específicos para feri-lo. Assim, nesta década, o Agricultural Adjustment Act liberou a produção de algodão e reduziu a necessidade de contratação de braços, o que foi bom para o proprietário e um desastre para o homem que perdia seu emprego. Em seu cerne, a política de Washington era orientada em favor do fazendeiro próspero e tinha o perverso efeito de excluir do negócio os pequenos produtores.
No fim da década de 20, os Estados Unidos mergulharam na “grande depressão”. As ações viraram nada e a economia do país foi à bancarrota. As populações urbanas e rurais entraram na mais absoluta miséria, sem trabalho ou qualquer outra perspectiva. Multidões de origem rural e urbana andavam a esmo à procura de pão, fazendo se destacarem entidades religiosas como o exército da salvação (oficialmente fundado em 1878), que distribuía uma sopa rala nas frias noites de Nova Iorque e outras localidades. Ao relento, o povo se esquentava em fogos improvisados colocados em latões de lixo pelas ruas. Era a visão do inferno.
A miséria que se instalou na então nação mais rica e próspera do planeta perduraria até o início da Segunda Guerra Mundial, quando a economia voltou a se recuperar graças em parte ao esforço bélico para enfrentar o nazismo que fora comandado pelo presidente Roosevelt, o que criou um mercado de armas que se transformou num dos principais produtos de exportação norte- americanos.

Em linhas gerais, na obra é traçado um importante painel sócio-econômico dos EUA, após a derrocada em 1929. Para delinear esse painel, Steinbeck conta a saga da família Joad em direção à Califórnia, trilhando a famosa estrada 66, principal rota da população em êxodo do leste para o oeste americano.
No livro, Steinbeck assim de refere àquela estrada:

“A estrada 66 é a rota principal das populações em êxodo. Estrada 66-a longa faixa de concreto que corta as terras, ondulando suavemente, para cima e para baixo, no mapa, do Mississipi a Bakersfield-atravessa as terras vermelhas e as pardas, galgando as elevações, cruzando as montanhas rochosas e penetrando no amplo e terrificante deserto,e , cruzando o deserto, torna a entrar nas regiões montanhosas até alcançar os férteis vales da Califórnia.
A 66 é o caminho de um povo em fuga, a estrada dos refugiados das terras da poeira e do pavor, do trovejar dos tratores que sangram o chão, da invasão lenta do deserto pelas bandas do norte, dos ventos ululantes que vêm em rajadas do Texas, das inundações que não trazem benefícios às terras e ainda acabam com o pouco de bom que nelas restava.
De tudo isso, os homens fugiam, e encontravam-se na estrada 66, vindos dos caminhos tributários, dos caminhos esburacados e lamacentos que cortavam todo o interior. A 66 é estrada-mãe, a estrada do êxodo.”

Ao empreender a leitura desse livro, encontramos um autor que acima de tudo amou a humanidade e seus valores mais altruístas, um homem que, nesse livro, criou alguns dos personagens mais generosos da literatura americana, entre eles a mãe, Tom e Casy.
Para quem quer conhecer a vida norte-americana no século XX, bem como certos efeitos da mecanização trazidos pelos tratores ao campo dos EUA, esse é um livro imprescindível e de leitura prazerosa.

Notas:
1)A Fox (Empresa cinematográfica norte-americana) fez um filme em preto e branco baseado no livro as vinhas da ira. Este filme, embora não tenha incorporado a maioria das grandes qualidades do livro, foi vencedor de dois oscars em 1940, apresentando características bastante interessantes: estética e dinâmica dos tempos do cinema mudo, embora seja sonorizado. Os protagonistas do filme foram Henry Fonda, Jane Darwell e John Carracine. O roteiro foi de Nunnally Johnson, tendo sido dirigido por John Ford e produzido por Darryl F. Zanuck.
2)Alguns falam da analogia entre os trabalhadores sem terra brasileiros e os retirantes cuja história o livro, As Vinhas da Ira, conta. Há certa pertinência na comparação das misérias vividas por brasileiros da atualidade e os pobres norte americanos da década de 30. Ambos os tipos de pobres foram discriminados.
3)A route 66 foi sendo gradualmente substituída nos anos 70 e 80 do século passado pelas chamadas Interstate highway, as quais são estradas modernas.
4)O velho traçado da route 66 ainda existe em vários pontos, sendo preservado como monumento nacional. Tal traçado pode ser ainda percorrido por veículos. No entanto, ele já não figura nos mapas de estradas de ligação entre estados desde 1985.
5)Interessante notar que muitos críticos literários encontram semelhanças entre a epopéia de Joade e o exôdo bíblico. É certo que as semelhanças existem, pelo menos no que tange ao objetivo final, a terra prometida.

Um comentário:

flavio07gonzalez02 disse...

Oi. Sou a Laurita,
Leon a sua mensagem além de enrriquecedoura é uma viagem no passado conferindo os verdadeiros motivos da história que levou ao desastre à administração no fim da década de XX às circunstâncias deste movimento levou os EUA à participar da construção de instrumentos bélicos de forma involuntária. O tio Sam é pacífico por natureza. Eu nunca duvidei!